Você não odeia o seu pai, você odeia o marido da sua mãe
- Kályton Resende

- 15 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Muitos meninos crescem acreditando que odeiam o pai. Mas, na verdade, o que odeiam é o marido da mãe. Essa diferença é decisiva, porque o pai, mesmo quando ausente, é uma função simbólica. Ele representa o limite, a lei, o terceiro que separa e protege a criança da fusão com o desejo materno. Já o marido da mãe é o homem concreto, aquele que ocupa a cena íntima e, muitas vezes, se torna o centro do discurso materno, o homem de quem ela fala, reclama, depende e se vitimiza.
Quando o pai é fraco, ausente ou destituído de função, o campo fica aberto para o excesso da mãe. E é aí que nasce a confusão. A mãe não transmite o pai ao filho, transmite o marido. Ela cruza a fronteira entre o mundo dos adultos e o mundo da criança, arrasta o filho para o seu drama conjugal, o transforma em confidente, terapeuta, protetor. O filho deixa de ser filho para ser o guardião da dor da mãe.
A mãe não o protege do mundo adulto; ela o introduz nele. Ela o adultiza. Fala demais, se queixa, chora, desabafa. E a criança, diante desse desamparo, tenta salvar a mãe. Passa a odiar o homem que a faz sofrer, não porque o conheça, mas porque foi envenenada por uma lealdade inconsciente. Assim, esse menino aprende a amar salvando, a desejar cuidando, a se colocar no lugar de quem protege.
O pai, mesmo que distante, é o que deveria ter sustentado o limite e dito: “isso é entre os adultos”. Mas quando o pai se ausenta, a criança fica exposta ao campo do desejo materno sem mediação. O ódio ao “pai” que ela transmite é, na verdade, o ódio à posição de ser usado para preencher o buraco da mãe.
Esses meninos carregam uma culpa que não é deles. Crescem acreditando que devem algo à mãe, que precisam ser bons, compreensivos, dóceis. Aprendem a ler o humor dela, a antecipar o sofrimento dela, a estar disponíveis para o que ela precisa. E, assim, tornam-se adultos que se relacionam a partir da dívida.
Quando esses meninos se tornam homens, e especialmente homens gays, a cena se repete. Os parceiros são convocados a ocupar o lugar desse marido da mãe, ora como ameaça, ora como objeto a ser salvo, ora como figura impossível de amar sem culpa. O circuito se repete porque a primeira relação amorosa foi uma relação envenenada pela demanda materna.
O ódio que esses homens sentem, às vezes disfarçado de indiferença, é o ódio por terem sido usados para proteger a mãe. É o ódio por não terem sido filhos, mas substitutos simbólicos do companheiro que ela não teve. É o ódio pelo que perderam, o direito de brincar, o direito de não saber, o direito de ser apenas criança.
O pai ausente, o marido invasor e a mãe demandante formam o triângulo do desamparo. E o menino cresce no meio desse enredo tentando decifrar o que é amar, o que é ser homem, o que é ser livre.
Restaurar essa fronteira entre o mundo da criança e o mundo dos adultos é o primeiro passo de qualquer elaboração. Porque enquanto o menino continuar salvando a mãe, continuará repetindo a mesma história em todas as suas relações.
Quando, na vida adulta, um homem chega para cuidar desse homem, ele o rejeita. O cuidado vindo de um homem reencena o lugar da falta e do inquietante familiar. É como se o gesto de afeto o devolvesse à cena primária, àquela em que precisou proteger a mãe de um homem e não pôde ser protegido por nenhum. O corpo reage com angústia, como se o cuidado fosse invasão, como se o amor fosse ameaça. Aceitar o cuidado é, portanto, um ato de coragem: romper com o pacto silencioso com o passado, desfazer a lealdade inconsciente à repetição e permitir que o amor não seja mais correção, mas descanso, o lugar onde, enfim, é possível existir sem precisar se defender.
Esses meninos não odeiam o pai. Odeiam a mãe.



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