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Trauma da Pobreza

Atualizado: 2 de jul. de 2025

Ascender socialmente pela educação não apaga o trauma da pobreza. Pelo contrário, inaugura um novo tipo de sofrimento que é psíquico, simbólico e social. Essa travessia, tão celebrada pelas narrativas meritocráticas, costuma vir acompanhada de um mal-estar profundo, que se instala justamente quando o sujeito chega “lá”, no novo lugar social almejado. O que muitos não entendem — e o neoliberalismo se esforça para silenciar — é que a conquista de um novo status social não apaga a inscrição do passado. Ela a intensifica.


Ao ocupar esse novo lugar, o sujeito se vê atravessado por um duplo estranhamento: de um lado, rompe com o seu grupo de origem, onde passa a ser visto com desconfiança, distância ou mesmo rejeição; de outro, é recebido com reservas pela nova classe à qual agora, ao menos praticamente, pertence. Essa ambiguidade gera um impasse subjetivo cruel: o sujeito ascendido não se reconhece mais no lugar de onde veio, mas também não é reconhecido no lugar para onde foi. Nasce, então, um sentimento de não pertencimento, de desenraizamento, de “não-lugar”.


Esse sentimento de não-lugar é a ferida aberta da mobilidade social no Brasil. É nele que se inscreve a neurose de classe: um tipo de sofrimento que só se torna possível quando há travessia social. A ascensão, longe de ser um movimento pacífico, separa o sujeito de seu grupo de origem, mas não lhe oferece garantias de pertencimento ao novo. O resultado é um abismo subjetivo onde emergem culpa, orgulho, solidão, medo da queda e, sobretudo, silêncio.


O sistema neoliberal, com sua lógica individualizante, tenta transformar essa dor em falha pessoal. O discurso hegemônico diz que se trata apenas de insegurança, síndrome do impostor ou baixa autoestima. Como se o problema fosse do sujeito que “ainda não se adaptou”, que “não sabe aproveitar a oportunidade” ou que “precisa acreditar mais em si mesmo”. Mas não é disso que se trata. O sofrimento de quem ascende socialmente é estrutural, não individual. Ele é o efeito psíquico de um sistema que exige esforço dobrado para que o sujeito seja aceito — e, ao mesmo tempo, cobra a renúncia simbólica da sua origem como condição para essa entrada. Não basta estar ali; é preciso apagar de onde se veio. E quando não se consegue apagar, a entrada permanece barrada — ainda que o corpo esteja presente.


Na clínica, vejo o trauma da pobreza e a neurose de classe como feridas invisíveis. São dores que não têm nome no vocabulário cotidiano, mas gritam nos silêncios, nos corpos tensionados, nas insônias, nas dificuldades de usufruir o que se conquistou. Não basta ascender. É preciso elaborar o que ficou. E dar nome a essa dor é, antes de tudo, um ato político.


Porque quando não se tem os signos para existir simbolicamente no novo lugar, a fala do sujeito não é ouvida como discurso. É escutada como sintoma. E o sintoma, como aprendemos na psicanálise, é justamente aquilo que a linguagem tenta calar — mas que insiste em retornar, pedindo escuta, nomeação e reconhecimento.


É nesse ponto que a análise pode operar: não como promessa de adaptação, mas como espaço de enunciação. Um lugar onde o sujeito possa, enfim, sustentar sua singularidade sem precisar amputar sua história. Onde a travessia não seja apenas social, mas subjetiva. Onde seja possível existir — e não apenas pertencer.

 
 
 

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