top of page

A lógica do gozo imediato: por que gastamos tudo que temos

Atualizado: 26 de nov. de 2025

Imagine alguém que passou dias sob o sol do deserto, sem um gole d’água. Quando finalmente recebe 200 ml, ela bebe tudo, de uma vez. Depois, ganha 500 ml, e repete o gesto. Um litro, então, parece quase um milagre, mas ainda assim, ela consome sem pensar, como se ainda estivesse no deserto. Aos poucos, quando começa a sobrar, o impulso não diminui. A diferença é que, agora, ela começa a oferecer aos outros: “você também está com sede, né?”. A garrafa nunca enche de verdade, porque o gesto está preso ao trauma da privação.


Essa imagem nos ajuda a compreender um dos mecanismos psíquicos mais enraizados em quem viveu a escassez: a lógica do gozo imediato. Quem nunca pôde desejar, porque teve que sobreviver, aprende a responder ao mundo com pressa. Não há tempo para planos, apenas para alívio. O gozo entra aqui como um substituto do desejo: rápido, urgente, repetitivo.


Na economia do sujeito que passou por privações, o dinheiro entra como a água da metáfora. R$ 0,50 são gastos com a mesma pressa com que alguém sedento bebe um gole. R$ 1.000 viram um alívio passageiro. R$ 10.000, uma chance de compensar todas as faltas anteriores. E o mercado, é claro, está pronto para oferecer mil objetos para cada mil reais recebidos. Sempre haverá um celular, uma assinatura nova, uma roupa, um mimo, algo que, ainda que não mate a sede, promete saciá-la por um instante.


Esse funcionamento é estrutural. Freud já nos alertava que o sujeito humano não é guiado pela razão, mas por formações inconscientes que repetem padrões. E Lacan, ao situar o gozo como um excesso que escapa à lógica do prazer, mostra como ele se instala justamente onde o desejo foi interditado. O sujeito que não pôde desejar, porque desejar exige tempo, espaço, mediação simbólica, passa a gozar. Goza para calar a angústia. Goza para não desejar. Goza como quem corre para não escutar o próprio vazio.


Por isso, dizer que “as pessoas gastam tudo o que ganham” não é uma crítica moral. É uma constatação clínica. Quem sempre esteve no lugar da falta não consegue sustentar o tempo da espera. O dinheiro, quando aparece, não é apenas moeda: é chance de existir. É corpo, é desejo encarnado, é identidade social. Gastar não é só gastar, é gritar: “eu também posso!”. E isso, num país marcado por desigualdades estruturais, é um clamor coletivo silenciado sob a máscara da irresponsabilidade financeira.


Quando alguém consegue juntar um valor simbólico e percebe que sua vontade de consumir diminui, o que se vê não é apenas uma conquista econômica, mas uma mutação psíquica. É o momento em que o sujeito, pela primeira vez, deixa de responder com o gozo e começa a responder com desejo. Não porque o desejo seja mais nobre, mas porque ele supõe tempo, adiamento, projeto.


Outro aspecto fundamental dessa lógica é que, enquanto o valor que você junta ou recebe for compatível com os objetos que o mercado oferece para comprá-lo, você tenderá a gastá-lo integralmente. Isso pode soar provocador, mas é uma constatação precisa: se o montante ainda encontra ressonância no catálogo dos seus desejos imediatos, um carro, um celular, uma viagem, um procedimento estético, então ele ainda está sob domínio da lógica do gozo. Experimente essa hipótese como metáfora: se eu ganhasse um milhão de reais, o que faria? Se a resposta vier imediatamente em forma de consumo, ainda estamos presos ao automatismo do gozo. Agora, se a resposta for “eu não sei”, isso já aponta para outra cena: a do desejo. Essa hesitação não é um problema, é o início de uma construção subjetiva. O “não saber” abre espaço para perguntar: o que eu desejo fazer com isso? E é justamente aí que a travessia começa.


Há ainda um alerta necessário: toda vez que você diz “eu mereço”, é importante se perguntar, mereço por quê? Em muitos casos, essa fala está a serviço de uma neurose de classe que associa conquistas ao sofrimento. A lógica é sutil, mas perigosa: como me sacrifiquei demais, como lutei tanto, agora mereço uma gratificação. Assim, o sofrimento se torna a moeda simbólica que valida o gozo.


É a romantização da dor no processo de ascensão social, como se o prazer só fosse legítimo se viesse depois da exaustão. Esse raciocínio reforça a ideia de que o desejo só pode existir como prêmio por uma privação anterior, e não como algo legítimo em si mesmo. Isso aprisiona o sujeito numa economia psíquica onde o sofrimento precisa ser constantemente reeditado para justificar qualquer conquista.


Ao contrário de bancar o desejo de forma afirmativa, muitos recorrem à gratificação como justificativa. Em vez de dizer “eu desejo X, Y, Z e, portanto, estou disposto a trabalhar duro, a suportar a abstinência do gozo fácil, a angústia da espera, o incômodo da falta”, prefere-se o atalho: “eu mereço”. O problema é que o merecimento, nesses casos, não é um gesto de afirmação subjetiva, mas uma negociação com o próprio sintoma. Desejar implica dizer: “eu quero isso, ponto”. Sem precisar que venha como prêmio por sofrimento. Desejar é sustentar o vazio.


E se for o caso de ainda não conseguir, que se diga: “estou na fase do gozo imediato, preciso disso agora, ainda não posso desejar outra coisa”. Nomear isso já é um passo ético. Mas que isso seja dito com verdade, e se possível, elaborado em análise. Não existe um dia marcado para sair da lógica do gozo, ele precisa ser criado. Porque o desejo não é um ponto de chegada, é um ato de invenção.


Portanto, economizar dinheiro não é uma simples questão de disciplina ou força de vontade. Para quem viveu a escassez, trata-se de uma reestruturação profunda da forma de existir no mundo. É aprender a não beber toda a água de uma vez, mesmo com sede. É aprender a confiar que haverá mais, mais tempo, mais oportunidades, mais possibilidades de escolha. E, sobretudo, é atravessar o trauma da pobreza que ensinou que qualquer excesso era passageiro, e por isso devia ser consumido imediatamente.


Quando esse excesso não é mais consumido, mas sustentado, nasce o desejo. Não mais o medo da queda, mas a vontade de permanecer. Só que, sem um “para quê”, sem um lugar simbólico onde esse desejo possa se apoiar, a lógica trava. A pessoa acumula, mas não se move. Guarda, mas não sonha. Resta só a planilha, o cálculo, a vigilância. Porque onde não há desejo, não há direção, e sem direção, todo dinheiro corre o risco de se tornar apenas defesa. Não se trata de gastar ou não gastar.


Trata-se de criar, no vazio deixado pela sobrevivência, um espaço novo onde o desejo possa respirar. E esse espaço, quase sempre, precisa ser inventado, com coragem, tempo e, se possível, com análise.

 
 
 

Comentários


Copyright © 2025 Kályton Resende - Todos os direitos reservados.

  • Instagram
  • TikTok
  • Whatsapp
  • X
  • YouTube
  • Spotify
  • LinkedIn
bottom of page