A conquista só é válida por meio do sofrimento
- Kályton Resende

- 26 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de nov. de 2025
“Tudo que vem fácil, vai fácil.” “Sem luta, não há vitória.” “Quem não sofreu, não sabe o que é valorizar.” Essas frases são repetidas como mantras em salas de aula, igrejas, jantares de família, palestras motivacionais e até dentro das universidades que romantizam o sofrimento. Mas o que elas escondem é um pacto perverso: o pacto com o sofrimento como selo de autenticidade da conquista. Essa lógica é especialmente cruel para quem ascende socialmente a partir da pobreza. O sujeito que veio de baixo, e que conquistou espaço por meio da educação, muitas vezes internaliza a ideia de que só o que foi obtido com dor, privação ou sacrifício extremo tem valor. Se algo é conquistado com relativa facilidade (e isso é comum depois de anos de esforço acumulado) o primeiro impulso não é de gratidão, mas de culpa.
A origem disso não é apenas pessoal. É estrutural. A moral do sofrimento tem raízes religiosas, históricas e econômicas. O cristianismo ocidental fundou sua teologia na glorificação do martírio. Jesus sofreu e morreu na cruz; logo, o sofrimento redime. Já o capitalismo traduziu isso em termos de produtividade: quem se esforça vence.A meritocracia então junta as duas pontas (a redenção pela dor e o sucesso pelo esforço) e oferece uma fórmula supostamente justa de ascensão, que só funciona para legitimar o privilégio dos que nunca precisaram dela. Esse discurso é útil às elites. Ele impede que os que ascendem pela educação questionem as regras do jogo. Em vez de perceberem que o sistema foi feito para que suas conquistas fossem mais difíceis, muitos incorporam a lógica meritocrática como uma moral pessoal: “eu sofri, logo eu mereço”. E assim sustentam, sem perceber, o gozo perverso das classes dominantes, que assistem satisfeitas o esforço contínuo dos que lutam para ocupar lugares que deveriam ser acessíveis a todos por direito.
O que consolida essa farsa é justamente o fato de que alguns poucos conseguem ascender. E quase sempre à custa de enorme sofrimento. Isso não é mentira, é parte da armadilha. A exceção se torna vitrine. A história do sobrevivente vira propaganda. “Se ele conseguiu, por que você não conseguiria?”, diz o discurso neoliberal, com ar de incentivo, mas tom de culpabilização. A trajetória do ascendente é editada, higienizada e posta a serviço da culpa: o outro pobre que não conseguiu é visto como menos esforçado, menos capaz, menos merecedor. O que não se conta (ou se conta mal) é que não há lugar nem vagas para todos, nem se esforçassem mais. Assim, o próprio sujeito que ascendeu é capturado como prova de que o sistema funciona, quando na verdade ele é a exceção que confirma a regra. E mais: sua existência legitima o sistema que o feriu. Ele vira o sintoma ideal do neoliberalismo: um sobrevivente transformado em vitrine, convocado a sorrir e a agradecer pela oportunidade de ter escapado.
A ascensão é possível, sim, mas não porque o neoliberalismo seja generoso, e sim porque ele precisa dessas figuras para sustentar sua ficção de justiça. O que ele oferece não é emancipação, mas um lugar solitário de exceção. Um lugar que cobra caro. E que, quase sempre, vem acompanhado da culpa de ter saído e da angústia de nunca mais pertencer.A psicanálise nos ajuda a entender a dimensão subjetiva dessa cilada. O sujeito neurótico não apenas aceita o sofrimento como parte da vida, ele o busca. Lacan nos ensina que o Supereu, essa instância que vigia e pune, é um verdadeiro carrasco. Ele exige gozo, mas gozo mortífero na forma de sacrifício. “Sofra mais”, ele diz. “Só assim você merece.” E se não vem de forma inconsciente, ele o provoca conscientemente. Na prática clínica, isso se traduz num padrão recorrente. O paciente que passou a vida inteira lutando para sair da pobreza, ao alcançar certa estabilidade, sente um incômodo inexplicável.
Ele começa a boicotar pequenas alegrias, sabotar conquistas, se meter em situações de desgaste afetivo, financeiro ou emocional. Quando chega ao consultório, muitas vezes diz: “mas está tudo bem na minha vida, eu não entendo por que estou tão mal”.É que viver bem, para quem foi ensinado a sobreviver, se torna um novo problema. Um problema que exige outro tipo de elaboração: não mais a do trauma da escassez, mas a da culpa por ter saído dela. Há uma espécie de luto mal resolvido de um sofrimento que deixou de ser necessário, mas continua sendo exigido internamente como condição de validade.No fundo, é como se o sujeito dissesse: “não me autorizo a viver bem”. E isso é uma violência internalizada. A conquista sem sofrimento ameaça um pacto ancestral com a dor, com o ciclo da pobreza. E romper com esse pacto é desobedecer à voz do Supereu, aquela que insiste que só a dor educa, só o sacrifício purifica, só a privação dignifica.
Mas viver bem também exige trabalho. Exige responsabilização pelo próprio desejo, elaboração de novas formas de gozar, construção de uma existência que não se sustente mais na privação, no gozo imediato, mas na criação por meio do desejo. Isso não se aprende com frases de efeito, mas com análise. Porque não basta sair da pobreza, é preciso sair da lógica da punição e entrar na lógica do desejo.



Comentários