A arrogância necessária na ascensão social
- Kályton Resende

- 26 de ago. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 26 de ago. de 2025
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro sobre a ascensão social através da educação. Ao colocar no centro a relação entre patroa e empregada, entre casa e quarto de empregada, entre herança e mérito, ele toca nas linhas de fratura mais dolorosas da sociedade brasileira. No entanto, o que me interessa aqui é a figura da Jéssica. Sua presença desloca a narrativa comum reservada ao sujeito pobre: não é a vítima inocente, não é a humilde resignada, não é a mártir silenciosa. Jéssica recusa esse script.
Se Macabéa, de A Hora da Estrela, e as narrativas de Édouard Louis sensibilizam a classe média por meio da humanização do pobre, revelando-o como “gente”, como “humano”, o gesto de Jéssica é outro. A Macabéa de Lispector se torna ícone da inocência, ser mitológico que comove justamente por não oferecer ameaça. Sua humildade e sua ignorância ganham aura de pureza, o que faz com que a classe média se emocione diante de sua figura: “até o pobre é humano”. Algo semelhante ocorre com Louis, que narra o corpo pobre atravessado pela violência, mas numa chave que serve de comoção e catarse a leitores de fora, confortando-os ao poderem, a uma distância segura, sentir compaixão: “o pobre europeu é humano”.
Esse gesto tem um efeito ambivalente. Ao mesmo tempo em que abre espaço para o pobre como sujeito de humanidade, também o prende no lugar da romantização, no lugar da moralidade e da falsa modéstia. É o lugar do pobre que agradece, que suporta, que se resigna e, no máximo, é reconhecido como símbolo moral. A classe média encontra nisso um conforto: o pobre continua no lugar que ela espera.
Jéssica rompe com essa coreografia. Ela não pede desculpas por estar ali, não se curva, não aceita o papel de quem deveria sentir gratidão pela oportunidade. Sua presença causa estranhamento porque opera na chave da arrogância. Mas trata-se de uma arrogância necessária, de uma arrogância política.
Lacan: o sujeito e o desejo do Outro
Podemos pensar Jéssica a partir da posição do sujeito diante do desejo do grande Outro, conceito fundamental em Lacan. O sujeito pobre é interpelado pelo Outro, representado aqui pela casa da patroa, pela ordem simbólica da classe dominante a ocupar um lugar já designado: o lugar da servidão, do agradecimento, da falsa modéstia. O desejo do Outro é que o pobre permaneça pobre mesmo quando ascende, que nunca perca o gesto de humildade, que nunca se autorize a ocupar o espaço do igual.
A postura de Jéssica é, então, uma recusa. Ela se desidentifica com o lugar que o Outro lhe destina. É isso que causa escândalo. Não é que Jéssica seja insolente por capricho: é que ela ousa não se submeter ao desejo do Outro. Sua arrogância é, nesse sentido, uma forma de sustentar o próprio desejo, ainda que isso a coloque em confronto com a ordem simbólica que a queria dócil.
Enquanto Macabéa encarna o sujeito que se apaga diante do Outro, Jéssica encarna a possibilidade de um sujeito que se inscreve como desejo próprio, sem pedir autorização. A estranheza que sentimos é justamente essa: vemos ali uma pobre que não performa a pobreza como espetáculo moral, mas que ocupa o espaço interditado do igual.
La Boétie e a servidão voluntária
A crítica de La Boétie à servidão voluntária também ajuda a iluminar essa figura. Para o filósofo, a dominação se sustenta menos pela força e mais pela aceitação voluntária dos dominados, que internalizam sua posição e passam a reproduzi-la. O servo se mantém servo porque se acostumou à sua servidão, porque a naturalizou, porque fez dela sua identidade.
A falsa modéstia do pobre, tão bem representada em Macabéa, é justamente essa servidão voluntária: aceitar o lugar designado e até mesmo encontrar dignidade no fato de permanecer pequeno. Essa é a posição que agrada ao Outro, que tranquiliza a classe média, que organiza a ordem social.
Jéssica rompe com isso. Sua arrogância é uma recusa da servidão voluntária. Ela não se curva, não reproduz o gesto esperado, não aceita o destino de agradecida. Sua presença incomoda porque, ao não repetir a falsa modéstia, ela mostra que a servidão nunca foi natural. Foi apenas construída, mantida e reproduzida.
A arrogância como lugar político
O que se espera do pobre é sempre uma pedagogia moral: ser exemplo de esforço, de sacrifício, de humildade. Mas quando alguém como Jéssica recusa esse lugar, tudo muda. Sua arrogância não é individualismo: é uma posição coletiva, porque abre a possibilidade de que outros pobres também se autorizem a ocupar lugares que antes pareciam interditos.
É por isso que sua arrogância nos interessa. Para quem ascendeu socialmente, Jéssica funciona como espelho incômodo. Ela não nos permite retornar ao lugar da falsa modéstia que tantas vezes usamos como máscara de sobrevivência. Ela nos convida a reivindicar um lugar que até hoje nos foi negado: o lugar da igualdade.
Se chamamos de arrogância esse gesto de recusa, é porque ainda falamos a partir do vocabulário do Outro. O que a classe dominante lê como arrogância, podemos reconhecer como orgulho. Os movimentos sociais ensinaram isso: o orgulho negro, o orgulho LGBT, o orgulho indígena. Em todos esses casos, tratava-se de inverter o estigma, de transformar aquilo que era vivido como vergonha em lugar de dignidade e potência.
Com Jéssica, podemos pensar o mesmo: sua “arrogância” é orgulho de classe, orgulho de não se curvar, orgulho de ocupar o espaço que parecia interditado. É a transformação do insulto em bandeira. O que para o Outro soa como insolência, para nós se revela como emancipação.
Esse aspecto é ainda mais agudo quando pensamos nas mulheres pobres que ascendem socialmente. A elas, a sociedade reserva uma cobrança dupla: além da humildade e da servidão voluntária esperadas de todo pobre, exige-se também o recato e a docilidade associados ao feminino. Quando essas mulheres rompem com esse script e se autorizam a ocupar lugares de poder, são vistas como arrogantes, insolentes, masculinizadas, exageradas. No fundo, o que incomoda é que, ao se recusarem à falsa modéstia, elas desestabilizam não apenas a ordem de classe, mas também a ordem de gênero. E, se você for negra ou não-branca coloca o outro em constante desafio ao ameaçá-lo com sua presença em lugar de poder e não de servidão.
Nesse sentido, a arrogância necessária de Jéssica é da mesma ordem que o orgulho dos movimentos sociais: não se trata de soberba, mas de resistência. Para as mulheres pobres, assumir esse gesto significa multiplicar a ruptura, contra a moralização de classe e contra o machismo estrutural. É um gesto que não apenas reivindica um lugar, mas rompe o circuito da servidão voluntária, recusa o desejo do Outro e inaugura um espaço de igualdade real.
Uma paciente fez uma leitura de que, no fim das contas, é a patroa quem passa a servir Jéssica, isso revela a profundidade do deslocamento que o filme provoca. Não se trata apenas de uma personagem que se recusa à falsa modéstia ou à servidão voluntária, mas de alguém cuja postura é tão desestabilizadora que inverte a ordem estabelecida. A casa, que antes funcionava como espaço de dominação, torna-se o cenário onde a patroa se vê obrigada a se mover em função de Jéssica.
Quando o pobre recusa o lugar do coitado, rompe-se o circuito que mantinha a hierarquia intacta. A patroa não sabe lidar com Jéssica porque Jéssica não aceita ser servida, aceita ser servida como igual, e isso obriga a patroa a se reposicionar, quase como se fosse ela a se adaptar ao novo regime simbólico que se impõe.
É nesse gesto que o filme se torna tão radical: mostrar que o poder não é essência, mas relação. A “patroa” só é patroa enquanto o outro aceita ser subordinado. Quando alguém recusa a subordinação, o título perde o peso e a posição se esvazia. Por isso, o que parece arrogância em Jéssica é, na verdade, a revelação de que a dominação sempre dependeu da servidão voluntária.
A arrogância, nesse caso, é potência. É a recusa em ser eternamente o outro moralizado. É a insistência em ser sujeito diante do Outro, e não objeto de sua compaixão. É um gesto político porque rompe a lógica da servidão voluntária e inaugura uma nova gramática das relações.
Jéssica nos mostra que a ascensão social só se cumpre quando ousamos ser arrogantes. Porque enquanto nos mantivermos no script da falsa modéstia, do pobre coitado, estaremos ainda servindo ao desejo do Outro. E quando rompemos com isso, enfim, algo de radicalmente novo se anuncia.



Comentários